domingo, 8 de maio de 2011

As lágrimas do poeta.

As lágrimas do poeta.

O ar é fresco. Um frescor de hortelã, eu diria. Em minha cabeça roda um mundo. Palavras que fortemente transitam entre uma linha de pensamento e outra. É um misto de gozo e agonia. De súbito uma felicidade que se alastra por todas as veias de meu corpo. A poesia fluindo em metáforas da realidade. Ao mesmo instante, um calafrio. Meus músculos tremendo por haver tanta confusão em uma única cabeça. A minha.

Com tanta informação, com tanta ânsia de criação, falta-me o que dizer. Qual será meu primeiro verso?

Nas raízes do mundo ligadas a minha

Mas que frase. O sentindo que reservei-lhe perdeu-se antes da metaforização da coisa. Sou seguido então de um desgosto pela poesia. O mundo é enormemente gigante. Para que perder tempo na poesia? Mesmo assim, minhas veias tremem quase lançando-se a uma explosão. Mais um verso é cuspido.

Um falta tremenda me aflige.

Eu não pensei nisso. Tenho certeza. Toda a certeza. Paro para dar uma espiada a janela. Os sons produzidos por vida se misturam. Só vejo a poesia nessa mistura melódica de sons sem melodias. Uma falta tremenda me aflige. Que falta é essa? Em primeira instancia acho tal falta é uma falta de respostas. O ar ainda é fresco. Os sons ainda são tocados por essa orquestra chamada vida. A buzina do carro em um congestionamento quase me narra mais outro verso.

O mundo implode a cada instante

Às vezes me esqueço que não sou só poesia. A fome ataca. Caminho em passos gigantes até a geladeira. Minha visão é turva, pois se preocupa apenas com as figuradas figuras da poesia em minha mente. Quase não enxergo o que é tão visível em meu caminho.

Esbarro em uma cadeira que tenho certeza que nunca esteve ali. A solidão do apartamento é abafada pela dor que a cadeira me trouxe. Esqueço da fome por alguns instantes. A agonia de sofrer a dor agora é parte da poesia. A fome é totalmente esquecida. Em pé, sem rumo, no centro de minha casa, penso em cada instante. A brisa da janela começa a me incomodar.

O ínfimo quase sempre se faz um todo.

Com quatro versos normalmente tenho já um poema. Sem sentido humano algum. Estando além dos sentidos reais. Organizo-os para analisá-los.

Uma ave morreu. É, ela morreu hoje. Quase agora. Uma pedra a atingiu ferozmente enquanto ela dançava seu vôo. No momento que suas asas deslizavam sobre o vento, que por sinal era frio, uma pedra tal como uma flecha, perfurou a obra prima da ave. Ela foi caindo e mesmo já morta ainda realizava sua dança.

A morte da ave lembrou-me o poema que aflito tento terminar. Mas a poesia de minha veia sumiu. Ouço apenas as buzinas de carros irritados e ferozes. Vejo o sangue da ave no chão. A fome volta. A dor não mais é bem sofrida. O todo daquele lindo instante fez-se agora passado como tudo. Chorei palavras. Um dilúvio de palavras era posto para fora de mim.

Agora me derrota um mal profundo

As lágrimas também são poesias

O poeta chora a morte da ilusão

O mundo o nascimento do poeta.

O telefone toca e vem a mim um convite a mais lagrimas. Um ser gritando que o poeta não é nada. E ainda afirma que a poesia atrasa o homem. E o bom perde-se nas mãos do artista. Ao passo que em todos os instantes vem-se mais vozes expondo a falta de utilidade do poeta. E me ajoelho diante espelho clamando por respostas. Triste é o poeta que sequer é reconhecido. Triste de mim que sou poeta. Triste da poesia que não enobrece o homem contemporâneo.

Que Deus dê-me a resposta

Porque sou poeta e não normal?

Dedico meu tempo ao inútil

Não faço bem nem faço mal

Garimpo o ouro de terras inexistentes

Grito o socorro dos não nascidos

Curo a dor de meu egoísmo

Porque sou poeta e não normal?

A noite agora é dona deste momento do tempo. E o poeta aqui ainda chora por dores que jamais sanarão as do mundo. Já me alimentei há horas e ainda sinto fome. Uma fome inenarrável que me faz querer deitar. O telefone está desligado. Não suporto o juízo do homem a meu oficio. Tenho fome de palavras. Estou com cada espaço de meu ser entupido de palavras e mesmo assim há um buraco negro que precisa ser preenchido com mais. Volto ao instante que comecei a narrar meu ser. O ar fresco. O misto de gozo e agonia. A dor sofrida de dores abstratas.

O sono trava uma batalha épica em meu ser. As forças já não são muitas, pois muito sofro por ser poeta. Sofro por saber que nunca alcançarei a utópica perfeição que tanto almejo. Sofro por poeta em um mundo onde a arte é um mero quadro ilustrador do passado muito passado. Sofro até quando estou alegre. E com todo este sofrer, escorro com uma lagrima um verso. Um último verso deste instante.

As folhas batem ao som do vento

Meio dia

O mundo se fecha

As almas vagam

O saber santificado se esquece

Mais meio dia

Um conceito errôneo do errado

Mata nasce morre cria

Almas sem rumos

Nuas

De suas almas

Um dia

É o mesmo

Poesia é alma

Alma é poeta

Poeta não é

Parte-Fim.

Fecho a janela, pois está frio.

2 comentários:

  1. - Rapaz, você é realmente brilhante, incontestávelmente brilhante... Já posso até lhe imaginar na ABL, sem exageros.
    - Enquanto eu?
    Trabalharei como cronista em alguma revista dessas, tipo: Veja, e afins... Isso é claro, sem falar no meu trabalho no Jornal "O Globo" ^^

    "Não importa o que os outros digam, não importa o que possa vir a parecer. Jamais desista de seus sonhos e do que você gosta só "porque dá mais dinheiro". Você pode ser mal pago, e até mesmo não reconhecido, mas acima de tudo, você faz o que gosta; e o faz bem.

    Abraços de teu amigo

    Marcos "Tinguah" Vinicius / Sd. Silva

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  2. É mestre, e eu achando que não iria conseguir arrumar tempo de ler hoje mas... foi eu ler a 1ª linha e teu conto me fisgou do início ao fim,superação deveria ser teu apelido! superar algo que eu já achava magnífico:escrever com tanto...tanto...(acho que 'fulgor' se encaixa) sinceramente,busquei o dicionário e não achei o que queria exprimir =\ usarei as palavras de outro sábio,'Tinguah'(rs) BRILHANTE!
    E não desista da poesia mestre,o que escreveu acima demonstra que ELA não desistiu de você!

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