Dizem que tudo um dia há de cair, desabar e ir ao chão. E que a dor, nesse caso, seria inerente a quem está debaixo dos escombros. Lá, no chão, tremendo seus ultimos suspiros, repousa o ser vivente, aguardando que o seu pulsar desacelere vagarosamente enquanto ele tenta rever sua vida. A única esperança dele agora, não é que ser salvo, é poder ter a certeza que viveu plenamente como queria. Há quem diga mais, que quando estamos a ponto da morte, a mentira não engana mais a nós mesmos, e que o único tranquilizante é saber que vivemos bem.
Com dezenas de moscas banhando em seu sangue, ele agoniza na dor, mas não só nela. Ele pensa que a farsa o levou ali, à aquele estado de vergonha e humilhação, deitado, sendo visto e comentando por todos. O mundo finalmente o assistia, mas só assistia e nada mais. Com a cólera de saber naquele momento, e só naquele momento, todas suas limitações, ele está hipnotizado com o momento. Afoito em descobrir todos os mistérios que ainda restavam naquele pingo, quase nada de vida, ele pôs-se a meditar...
" Minha liberdade se foi, junto com isso que tenho como vida. Minha honra, devo rir. Pois eu nunca fui tão honrado como agora. A morte, que não escapa a nenhum dos que foram fadados com a vida, me presenteia com sua tão mal esperada presença. Oh, eu deveria penar com minha situação? Se eu agora, for me preocupar com pena, não terei gozo desses prazeres que, excluindo a dor e a vergonha, me fazem querer viver novamente só para experimentar tal situação."
Meditações estas bem estranhas a quem, como ele, nunca deu valor a nada. Ele nunca teve algo, mas isso não impede que ele se apegue a valores tão normalizados ao mundo que ele vive. A cada segundo que passa, a dor, aumenta. O sangue passa a sair, e a torneira de sua vida, cada vez mais aberta, continua a expelir esse sangue de seu corpo. Sua carne, de tão fria, não sente mais a dor que ele deveria estar sentindo nessa hora. Um presente dado a ele em seus ultimos momentos, essa ausência de dor, o tranquilizava...
"Enquanto eu estava mais vivo, não passou um dia em que eu dormisse sem ter a dor em mim. Hoje, depois de estar caído no mais quente asfalfo, afirmo com todo o resto de vida que há em mim, que nunca me senti tão bem. O tempo? Esse não mais existe a mim, estou aqui consciente a tanto tempo - ou a pouco, não importa- que minhas lembranças estão se apagando, e nem mais da dor eu lembro. Esqueci o que é a dor, esqueci de tudo. Estou ansioso para logo deixar esse ponto que me encontro, e partir, rapidamente, para o mundo, que hoje sei, melhor que este."
O amargor de saber que está tão perto do fim desejado, faz com que ele entre em um estado de transe. Aonde para reconforta-se, cria um universo paralelo e imáginario, que mantém todos seus mais profundos desejos de paz. Tudo que é prejudicial para ele, torna-se esquecido. Sua mente, sua alma, seu coração, sua essência ou seja lá o que for, dão a ele, com tamanha compaixão, o último suspiro de felicidade. O mundo, as coisas materiais e tudo o mais que nunca foram essenciais ao homem, hoje, para ele, tornam-se novamente essenciais. Arrisco dizer que ele torna-se um homem puro, com a única ambição de seguir em frente.
"Acho que... espere ! Aquela luz... impressão minha? Devo estar perto, tão perto de largar esse peso que outrora senti. Mas bem, agora veio como uma pequena brisa, a saudade do que nunca fiz. Mas que egoismo meu, estou tão perto de ir para lá. Não devo ceder a meus caprichos humanos... mas hora, sou humano! E graças a essa minha humanidade, fui agraciado a entrar em tal estado que invejaria até os anjos. Estou sangrando, mas quem liga? A única coisa que me deixaria aflito por estar banhando em sangue assim, seria sentir a dor que tanto senti em minha vida."
"Agora veio uma dúvida, que surgiu enquanto vejo - só quando quero- pessoas aflitas e outras trabalhando e suando para salvar minha vida. Elas, estão vivendo e gastando o tempo de suas vidas comigo, que já aceitei não continuar mais aqui, nesse mundo aonde a dor é presente. Até ouso dizer que estão fazendo algo por mim que nunca fora feito antes. Estão me amando..."
Pensar, melhor, saber que nunca fora amado destrui esse império que ele havia construido. Foi somente necessário uma única palavra para que sua paz, sua calma que cobria seus sentidos, rapidamente desaparecesse e fossem todos tomados pela pena. Pena esta que ele passou a sentir de si mesmo, e desejar como nunca havia desejado algo, que tivesse a oportunidade de ser amado.
" Estou enganando a mim mesmo com esses sentimentos mesquinhos e sem dignidade. Estou indo para tudo que sempre desejei, o mundo que desconheço e que me desconhece e por isso não haverá conflitos. Enquanto mais vivo, nunca fui amado, e hoje no dia de minha morte...[ pausa] tais pessoas ousam querer me impregnar com esse sentimento tão futil. Saiam! Saiam daqui seus infelizes!!! Não venham querer estragar o único dia feliz de minha vida. Eu estou indo para onde quero. Não quero que suas ferramenetas mal lapidadas venham me tirar de meu sossego! Saiam, saiam, saiam..."
Confuso, começou a em seu interior a ira que levou a ele insultar as pessoas que desejavam lhe salvar a vida. No fundo ele queria mesmo continuar vivo, e aproveitar algo que nunca foi lhe dado a opção. Mas ele, não queria atribuir a si mesmo a culpa de naquele momento não lhe ser agradavel a morte. Então, como último desespero, tornou-se a gritar, mas um grito que ecoava do mais fundo de sua vontande. ele gritava por vida, na esperança que alguém ouvisse seus barulhos vitais.
Então, de repente, um dos paramédicos que estavam auxiliando ele, ouviu sinal de vida. Uma emoção a todos que estavam ali presentes. Palmas e graças eram dadas a esse homem, que há algumas horas atrás havia sido jogado por sua amante do quinto andar do prédio Ivo de Menezes.... O homem, que nunca havia gozado da vida, teve uma nova oportunidade.
A ambulância, que estava carregando o homem, quando foi fazer uma curva, capotou e bateu em um caminhão. Excluindo o motorista, não houve vivos.
E a chance recebida, foi lhe útil por seus instantes.
M. A. Lacerda ou Caetano de Freitas.
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